sábado, janeiro 02, 2010

Lá em cima está o Van Zeller

Francisco Van Zeller terminou a sua liderança da Confederação Industrial Portuguesa (CIP), iniciada em 2002, e deu uma das suas poucas entrevistas ao último Diário Económico do ano de 2009 (31 de Dez/2009), ano em que manifestou a sua oposição ao aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN). O que não o impede de fazer a afirmação extraordinária que recebeu destaque de primeira página. Se FVZ se refere à incapacidade de viver com esse valor por mês, não será por falta de imaginação, mas sim por falta de capacidade de observação do arraia miúda à sua volta. Presumo que não se confronte com a pobreza de quem trabalha nas suas deslocações de Mercedes ou BMW entre a sua vivenda ou condomínio fechado e os escritórios da CIP. Presumo que a sua afirmação não se refere à incapacidade de imaginar-se a manter o mesmo nível de vida auferindo o SMN. Só a roupa que traz vestida deve rondar esse valor.
Porque recusa o aumento do SMN?
«O salário mínimo constitui un encargo muito grande para dois, três, quatro sectores. Claro que haverá organizações pequenas que podem reflectir esse preço no serviço, na exportação não é assim. Os sectores que estamos a falar, a cerâmica, a confecção, cablagem, sector eléctrico, debatem-se em mercados externos. Todos exportam para cima de 80% do que produzem, se não vendem não têm dinheiro para pagar e essa é uma realidade.
[Não me imagino a viver com 450 euros mensais.] É terrível. Mas com 500 também não, com 550 também não, com 600 também não. É demagógico pensar que os 25 euros corrigem, não corrigem nada. O que corrige é aumentar a produtividade, e esse é um caminho que se está a seguir, para termos salários decentes e mais altos do que isso. Há três anos desenhamos um caminho para os 500 euros, baseado num crescimento da produtividade que nunca aconteceu, e por isso as nossas boas intenções encalharam (...) porque a economia parou, porque a inflação baixou, a produtividade baixou, o PIB baixou. Como é que se continua, ignorando tudo isso, com um projecto que foi calculado há três anos baseado em premissas completamente diferentes.»
Sempre interessante ouvir a voz do capital. Claro que do seu ponto de vista "25 euros não corrigem nada". Pelos vistos nem 150 euros corrige nada. Creio que um trabalhador a receber o SMN sentiria porém uma diferença se recebesse mais 25 euros por mês, já para não falar dos 150 euros.

Inundado com produtos baratos estrangeiros, inúmeros sectores produtivos viram-se obrigados a procurar o escoamento dos seus produtos no exterior. Por um lado, os baixos salários nacionais não levam as famílias a procurar os produtos (estrangeiros) mais baratos, em vez dos produtos nacionais. Por outro, as empresas nacionais correm que nem galinhas sem cabeça à procura de escoar os seus produtos em países onde os seus preços ainda são competitivos, porque os salários dos trabalhadores portugueses são relativamente baixos. E por quanto tempo, merece a pena perguntar. Se no contexto de um mercado globalizado, a economia nacional continua a assentar em mão-de-obra barata tem os dias contados. Um significativo aumento de vendas dos produtos nacionais só terá lugar com um aumento do poder de compra nacional. E a culpa da queda de produtividade é dos trabalhadores que têm vindo a apertar o cinto, furando novos buracos para o continuar a apertar ainda mais? Não me venham com a história do Sócrates que o caminho da modernização foi interrompido por uma crise que nos caiu em cima, pela qual não tivemos responsabilidade nem controle. Crise essa que não impediu o sector bancário e energético de arrecadarem lucros tremendos.

O aumento do SMN é um questão de justiça social e também de estimulo à economia nacional. Caro FVZ, não meça a sua necessidade pela sua capacidade de imaginação, nem a sua viabilidade meramente por considerações macro-económicas. Lançou-lhe um desafio à sua imaginação: viver como um dos 610 mil trabalhadores abaixo do limiar da pobreza; ou como um dos milhão e meio de reformados com rendimentos interiores a €330 mensais. Melhor ainda, não imagine. Penhore os seus bens, e viva no real.

2 comentários:

Clara Belo disse...

Trabalho numa biblioteca onde a mulher da limpeza recebe o salário mínimo nacional, muitas vezes até menos e tarde e a más horas. Tem uma filha que tem problemas de saúde e a sorte dela é que a mãe continua a dar-lhe uma semanada. Tem sido muito minha amiga e o mínimo que pude fazer por ela este ano foi oferecer-lhe um cesto que ela me pediu e que veio junto com o cabaz de Natal a que ela não teve direito.

F. disse...

Muito te agradeço as palavras que me deixaste no blog.

A luta continua, camarada!